segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As mãos da minha mãe










Eu quero aprender fotografia, culinária e jardinagem. Para a fotografia e a culinária, eu tenho a meu favor alguns dos meus sentidos. Para a jardinagem, tenho nenhuma habilidade ou talento. Muito pelo contrário. Quando recebo uma planta de presente, fico logo aflita. Sei que não vou dar conta dela.

Com minha mãe é bem diferente. Dona Denice tem mãos abençoadas para plantas. Quando dá certo, diz que é porque conversa com elas.

Há alguns meses, passou a dedicar-se a algumas mudas, que ela cuidadosamente enterrou, e que deveriam, em alguns outros meses, colorir e perfumar o quintal lá de casa.

Quando o último domingo "acordou", ainda havia uma garoa fina a encerrar a longa madrugada de chuva. Desatenta, levei um susto enorme quando Dona Denice me chamou, eufórica, à janela do seu quarto. Do lado de fora, duas flores em palmas, de um rosa delicado. "Elas só abrem à noite, sabia?", me perguntou.

Não, mãe, eu não sabia. O que eu sei é da capacidade das suas mãos de fazer florir.

Nas fotos (minhas), o jardim da minha mãe. Por ela mesmo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lindomar, o médico dos cabelos



Conheci Lindomar ainda na faculdade. Foi Luisa (www.desafiodeser.blogspot.com) quem o apresentou. Logo eu descobriria do que Lindomar é capaz de fazer com uma tesoura ou uma navalha nas mãos e um bocado de tinta também. Pelas mãos do Lindomar já tive cabelo curto, cabelo comprido, cabelo médio. Por suas mãos tive os fios do cabelo tingidos de preto, chocolate, vermelho e de muitas cores ao mesmo tempo também.

Outro dia eu estava lá, sentada mais uma vez na cadeira à espera dos milagres do Lindomar, quando uma pessoa chegou à porta do salão e o chamou de "o médico dos cabelos."

- Do quê ele me chamou mesmo? - perguntou. Eu repeti pra ele ouvir.

Lindomar gostou daquilo.

Naquele dia, especialmente, eu me assustara com a capacidade do Lindomar de falar sem parar. De falar de um monte de coisa ao mesmo tempo, de emendar um assunto no outro, mas cuja essência era uma só: Lindomar não acredita que o Brasil tenha jeito e tem certeza que nascer brasileiro foi uma tremenda brincadeira de mau gosto que fizeram com ele.

Lindomar nasceu no interior de Goiás. É o mais velho de cinco irmãos. Em 1989 mudou-se definitivamente para Goiânia. Montou o salão na Rua 1, no Centro, onde permanece esses 20 anos. Não sei direito como as coisas funcionam na casa dele, mas ele parece cuidar (criar, educar etc) de dois sobrinhos adolescentes. Linha dura, já testemunhei seus telefonemas para casa pra saber o que eles estão fazendo. Limita o uso do computador e da internet, exige compromisso com a escola.

É esse Lindomar aí que naquele dia disparou a falar. Falou que há 18 anos não vai às urnas e que prefere continuar assim.Que acredita em político honesto assim como acredita em papai noel. Que não entende porque o Brasil investe tanto em seu processo eleitoral - "Vê essas urnas eletrônicas! Eles enchem a boca pra falar o quanto elas são modernas! Mas ninguém resolve a fila do SUS, a fila do INSS, a fila do banco...". Que no Brasil, dinheiro vale mais que palavra, que honra, que dignidade. Que não pode entender também como seres humanos podem ser amontoados em macas frias no corredor de um hospital lotado "como acontece no Hugo. Vi muita gente que eu gosto sofrer esperando atendimento ali".

Eu, otimista convicta - podia até ser garota propaganda daquele comercial de TV que diz "sou brasileiro e não desisto nunca!" - tentei colocar "panos quentes" na conversa. As coisas não são bem assim, nem tudo está perdido, nosso povo é guerreiro, tudo vai melhorar, em outros lugares também há incontáveis injustiças... "Deire, pobre só não morre quanto não tá no dia ou porque outro pobre ajuda. Isso aqui não tem jeito não." Lindomar, que nasceu em Goiatuba, nunca deixou as fronteiras do País e mal deixou os limites de Goiás. "Só não vou embora por causa da minha família."

sábado, 31 de outubro de 2009

Carta a Elisa


Querida Elisa (*),
Você chegou na primavera, num dia em que as pessoas adoram: sexta-feira. Nasceu sob o signo de escorpião, numa data assim redonda, o que me enche de inspiração. Você foi dada à luz numa das horas mais bonitas do dia, a segunda metade da tarde, quando o sol se torna agradável aos humanos, quando a noite se aproxima e o descanso se anuncia. Quando seu pai ligou dizendo que você estava a caminho, pude escutar, lá no fundo, os sons de sua mãe. Aí então lembrei-me de um trecho de O Pequeno Príncipe, livro que me encantou quando eu era pequena: "Se tu vens, por exemplo, às 4 horas da tarde, desde às 3 eu começarei a ser feliz (...) Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração."

Eu e um monte de gente que amamos sua família estivemos, nos últimos nove meses, a "preparar o coração" para a sua chegada. Você é irmã do Pedro, a quem também escrevi uma carta quando nasceu, há quase sete anos. Mas a carta do Pedro não veio parar assim, na internet. Outros tempos. A dele redigi, assinei e entreguei à sua mãe. Ela deveria entregar a ele quando Pedro crescesse.

E como Pedro tem crescido, precisa ver! Te esperou como uma criança espera o melhor presente do mundo em noite de Natal. Você descobrirá logo, minha querida, quão forte é seu irmão e quantas coisas ele tem pra lhe ensinar. Pedro é um apaixonado por música e musicais. Tenho cá meus palpites de que seu destino é ser um pop star (ele já ensaia com o Michael Jackson, seu novo ídolo).

Eu e sua mãe nos conhecemos há 13 anos. Tempo suficiente para nos tornarmos irmãs e eu, agora, sua tia. E se tem uma coisa que tenho certeza que aprederá logo em sua casa, Elisa, é que colo de amigo cura todas as dores do mundo. Curei muitas das minhas no colo da sua mãe e ela, no meu.

Logo você descobrirá também que é na sua casa que acontece a maioria das festas que fazemos (a gente arruma muitos motivos para ficarmos juntos. Coisa de gente que se gosta. Neste ano, por exemplo, você já participará do nosso tradicional amigo-secreto...). Seu pai adora fazer churrasco e a gente adora o churrasco que ele faz.

Com a tia Luisa você aprenderá a ser chique, a fazer recepções memoráveis, a preparar tudo nos mínimos detalhes (e também que eles fazem uma diferença enorme!), a amar os livros e a fazer álbuns de fotografia.

Com a tia Adriana você descobrirá o significado da palavra simplicidade, aprenderá que as mulheres usam, sim, decotes e minissaias e que ficam lindas assim e que, encontrar o amor da sua vida exige uma dose extra de paciência.

Com a tia Luciana você aprenderá a não gastar dinheiro à toa e a ser mais prática com as tarefas cotidianas. E se você tiver coragem de ir logo dar um passeio numa montanha-russa (um brinquedo pra lá de radical!), ela também a levará.

Já eu me encarrego de te levar ao cinema, a cada nova estreia, e de te ensinar a fazer bolo de chocolate.

(*) Elisa de Oliveira Camargo, irmã do Pedro, filha da Carla de Oliveira e do Leonino, nasceu em 30/10/09, em Goiânia, medindo 48 centímetros e 2,940 quilogramas.
P.S.: Arthur, o meu filho, que é também amigo do seu irmão, disse exatamente isso quando viu uma foto sua:
- Mãe, a Elisa só pode ter pedido a carinha emprestada a um anjo pra nascer.
Ele tem razão...
Foto: Tia Deire.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Minha receita de amor


Descendo de uma família de gente que se casa. Papel passado em cartório, padre dando a bênção. Não falo exatamente lá de casa, onde apenas minha mãe se casou assim, com contrato assinado, mas da extensão do clã. Uma gente que se casa com direito a testemunha e que costuma permanecer assim. Alguns se separam, mas se casam de novo, não raro com a mesma pessoa. Entre os amigos, também há muitos que mantêm, há anos, uma relação estável (essa palavra é perfeita para o sentido deste texto!). Já eu, se não tivesse tantos problemas com rótulos, diria que sou uma solteira convicta.

À minha volta, os casos de insucesso no casamento se multiplicam. Conheço quem tenha se casado e seja feliz junto. Conheço mesmo, juro! Mas se eu tivesse que escrever uma matéria sobre o assunto e usasse as minhas estatísticas para isso, seria mais ou menos assim: “Levantamento em Goiânia mostra que casamento destrói o que há de melhor no amor”.

Nunca me casei (pelo grupo etário que componho, acho que posso usar a palavra “nunca”). Quando cheguei mais perto do altar, eu tinha uns... 18 anos (!). Depois disso, formar uma família padrão “comercial de margarina” (como define minha amiga, jornalista, artesã, mãe e blogueira Luisa - www.desafiodeser.blogspot.com) tornou-se algo cada vez mais improvável.

Suposta, provável, verdadeira e real se tornou a minha capacidade de amar intensamente!

- Mãe, você nunca vai se casar, não?

Foi na volta da escola, ontem. Após uma pausa, algumas palavras ao vento e abstrações impróprias para os ouvidos de uma criança de nove anos, a sensação, no final, de que ele preferiria mesmo é viver num comercial de margarina.

E aí que me resta trazer pra cá a poesia de Geraldo Azevedo, que canta uma receita de amor que não tem como dar errada. E que seria a minha.

“Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo”.

(Dia Branco – Geraldo Azevedo e Renato Rocha)

sábado, 24 de outubro de 2009

Meu olhar - parte I










Aos 8 anos de idade, quando o meu pai morreu, assassinado, eu decidi: quando eu crescer serei advogada, delegada, juíza ou qualquer coisa do gênero. Mais tarde, ao perceber meu "mole" por seres quadrúpes e irracionais (!?), quis ser veterinária. Cheguei a fazer um vestibular pra Letras (achava que podia levar jeito para professora) e ameacei fazer também pra música, pensando em aproveitar minha (antiga) habilidade com o violão e minha voz razoavelmente afinada (quem sabe realizasse o velho sonho de cantar na noite?). Mas minha ameaça ficou mesmo... na ameaça. O violão? Empoeirado num canto da casa. Fora isso, nunca achei que eu tivesse talento pra qualquer outra coisa. Mas aí que me meti mesmo foi com o Jornalismo. E hoje, 13 anos depois, percebo que meu ofício se resume, essencialmente, à minha capacidade de olhar, ver, descrever o que vejo e oportunizar, assim, que outros vejam também.


No meio do caminho, fosse fazendo jornalismo ou não, me descobri caída de amores por uma outra forma de olhar o mundo à minha volta e de, do mesmo modo, registrar o que vejo. Há dois Natais, minha mãe, certamente atenta ao meu novo amor, me deu uma câmera fotográfica de presente. Um equipamento simples, quase autônomo. O que faz a diferença entre as fotos que eu ou qualquer outra pessoa faça é, nada mais, nada menos, que o olhar.


E então que me faltam TODA a técnica e um equipamento que permita eu imprimir, de fato, o que eu vejo. Sobra vontade de me tornar fotógrafa de verdade. Recebo "empurrãozinhos" diários e acho que vou comprar não um, mas dois cofres para guardar minhas moedas: um para eu ir às Olimpíadas de 2016 no Rio e outro pra trazer de lá o meu olhar na memória da câmera fotográfica.


Acima, algumas tentativas minhas... Sem pedido de licença aos fotografados e aos responsáveis pelas produções. Mas tenho certeza que não se incomodarão...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Trilha sonora de uma longa noite de inquietudes interiores ou sobre o meu relicário

"É uma índia com colar
A tarde linda que não quer se pôr
Dançam as ilhas sobre o mar
Sua cartilha tem o A de que cor?


O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou


E são dois cílios em pleno ar
Atrás do filho vem o pai e o avô
Como um gatilho sem disparar
Você invade mais um lugar
Onde eu não vou


O que você está fazendo?
Milhões de vasos sem nenhuma flor
O que você está fazendo?
Um relicário imenso deste amor


Corre a lua porque longe vai?
Sobe o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade por esta noite


Porque está amanhecendo?
Peço o contrário, ver o sol se por
Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for


Quem nesse mundo faz o que há durar
Pura semente dura: o futuro amor
Eu sou a chuva pra você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou


O que você está dizendo?
Milhões de frases sem nenhuma cor, ôôôô...
O que você está dizendo?
Um relicário imenso deste amor


O que você está dizendo?
O que você está fazendo?
Por que que está fazendo assim?...está fazendo assim?

Relicário - Nando Reis

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ela fala por mim

"Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou."

Com licença poética - Adélia Prado