sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Zíper



Preciso transformar a teoria das peneiras num mantra pra minha vida.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A cor do meu natal



A árvore de natal lá de casa é a mesma do ano passado, que era a mesma do ano anterior, que era a mesma do ano que havia terminado. Mas está diferente, agora.

A árvore de natal lá de casa aceitou, sem reclamar, o fato de que eu queria brincar. Eu quis brincar de colorir nossa árvore assim como resolvi brincar de colorir meus dias.

A árvore de natal lá de casa perdeu seus adereços todos: os do ano passado, os do ano anterior e os do ano que havia terminado antes, também. Ganhou novos, feitos com o que havia por perto. Na verdade, novos em parte. Trouxeram com eles muito do que eu conhecia.

A árvore de natal lá de casa não tem muitas coisas que as árvores de natal têm. Não tem bolas, mas têm anjos.

A árvore de natal lá de casa tem o azul, o branco, o rosa, o vermelho, o lilás, o verde, o laranja, o dourado. Colore nossa sala e me faz pensar nas cores que quero pra mim.

Foto: Deire Assis

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Do ocidente ao oriente em uma única noite




Confesso que cheguei ao fim da noite sem entender quase nada. Mas isso também não era lá o mais importante. Importante mesmo era o que eu tinha visto, o que eu tinha sentido, a vibração que aquela música provocou em mim.

No sábado, a jornalista Samia Afiune e o empresário Faez Abeoud subiram ao altar da bela (belíssima) Igreja São Nicolau. A igrejinha (ali na República do Líbano, na divisa dos Setores Oeste, Aeroporto e Centro) foi o palco da cerimônia católica ortodoxa que celebrou a união dos dois, cujas famílias tem origem síria. Os padres que comandaram a cerimônia (Rafael Magu e Firass Bustate) celebraram o casamento parte em árabe, parte em português. A igreja, pequenininha mesmo, tem uma tonalidade ocre – em parte provocada pela iluminação –, o que torna ainda mais belos os muitos paineis que se espalham em seu interior, todos com representações caprichadíssimas das principais lideranças da doutrina católica. Acostumada a a testemunhar casamentos realizados em enormes templos apinhados de gente, surpreendi-me com cada detalhe daquela cerimônia, onde tudo fazia sentido. De mãos dadas, celebrante e noivos dão voltas em torno do altar, sobre o qual está o Evangelho. No álbum de fotografias de Samia estarão fotos dela e do marido com coroas douradas sobre a cabeça, depositadas pelo sacerdote e trocadas, de um para o outro, em uma cena cuja simbologia era de encher o coração.

Mas foi mesmo na recepção oferecida pelos noivos aos convidados que, definitivamente, me encantei. Uma banda de São Paulo veio a Goiânia especialmente para tocar na festa de casamento. Nada que eu tivesse visto até aquela noite chegaria perto daquela atmosfera. A música – intensa, de batidas fortemente marcadas e incompreensível (rs) – transformava os corpos de homens e mulheres em curvas sinuosas. Elas com um balanço ritmado dos quadris e mãos que querem seduzir todo o tempo. Eles, com uma desenvoltura sem qualquer referência do lado de cá, no ocidente, se dão as mãos para dançar. Com batidas de pés transmitem força e sensualidade. Quando Samia e Faez chegaram ao local da festa, foram apresentados num cortejo de mulheres que dançavam com candelabros sobre a cabeça, uma dança tradicional em cerimônias de casamentos árabes. Também não sei o que significa o ritual, mas gostei demais de ver a luz daquelas velas a iluminar o salão...

Beleza, sensualidade, tradição, cultura, identidade.

Foto: Deire Assis

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre peneiras



Se fosse a minha mãe, ela me diria: em boca aberta, não entra mosquito ou ainda quem fala demais, dá bom dia a cavalo.

Na versão moderna apresentada esta manhã por uma colega de trabalho (e que eu não conhecia, apesar de parecer ser muito popular), a mesma coisa pode ser dita assim:

Segundo ela, antes de dizer alguma coisa a alguém, é preciso passar essa coisa por três diferentes peneiras. A primeira delas é a peneira da verdade (autoexplicativo). A segunda, é a peneira da bondade. Essa melhor explicar. Segundo a minha amiga, antes de dizer qualquer coisa a alguém, melhor pensar se você mesmo gostaria de ouvir isso. Passou? Então passe pela terceira peneira, a da necessidade. Precisa dizer? Tem relevância? Se a coisa engastalhou (existe. Olhei no Aurélio), engula.

Sábia minha mãe, viu?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Jingle Bells e o que eu não fiz



Invariavelmente, sou tomada por uma aflição enorme quando chega essa época do ano. A cidade se ilumina, se pinta de vermelho e verde, as pessoas aceleram os passos e uma única melodia invade os cantos todos e os meus ouvidos também. Ingredientes que anunciam que mais um ano acabou e que o meu tempo para fazer o que eu planejei antes que isso ocorresse, também. Aí, lá se vai 2009 e eu:

- Não consigo fazer uma entrevista em inglês;
- Não viajei para nenhum lugar que eu já não conhecesse;
- Não redigi nenhuma grande reportagem;
- Não comprei a coleção O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo;
- Li muito menos do que planejei;
- Assisti bem menos filmes do que eu quis;
- Trabalhei muito mais do que eu deveria;
- Engoli muito mais sapos do que eu merecia;
- Não voltei a tocar violão;
- Não voltei a cantar;
- Não comecei a dançar;
- Não aprendi a nadar;
- Não comprei uma bicicleta;
- Não me apaixonei;
- Não fiquei grávida;
- Só fui ao Rio uma única vez;
- Recebi meus amigos em casa muito menos do que eu desejei;
- Não comecei a malhar;
- Não disse "eu te amo".

O Rio, as Olimpíadas e o meu porco temático



Foto: Deire Assis

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As mãos da minha mãe










Eu quero aprender fotografia, culinária e jardinagem. Para a fotografia e a culinária, eu tenho a meu favor alguns dos meus sentidos. Para a jardinagem, tenho nenhuma habilidade ou talento. Muito pelo contrário. Quando recebo uma planta de presente, fico logo aflita. Sei que não vou dar conta dela.

Com minha mãe é bem diferente. Dona Denice tem mãos abençoadas para plantas. Quando dá certo, diz que é porque conversa com elas.

Há alguns meses, passou a dedicar-se a algumas mudas, que ela cuidadosamente enterrou, e que deveriam, em alguns outros meses, colorir e perfumar o quintal lá de casa.

Quando o último domingo "acordou", ainda havia uma garoa fina a encerrar a longa madrugada de chuva. Desatenta, levei um susto enorme quando Dona Denice me chamou, eufórica, à janela do seu quarto. Do lado de fora, duas flores em palmas, de um rosa delicado. "Elas só abrem à noite, sabia?", me perguntou.

Não, mãe, eu não sabia. O que eu sei é da capacidade das suas mãos de fazer florir.

Nas fotos (minhas), o jardim da minha mãe. Por ela mesmo.