quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lindomar, o médico dos cabelos



Conheci Lindomar ainda na faculdade. Foi Luisa (www.desafiodeser.blogspot.com) quem o apresentou. Logo eu descobriria do que Lindomar é capaz de fazer com uma tesoura ou uma navalha nas mãos e um bocado de tinta também. Pelas mãos do Lindomar já tive cabelo curto, cabelo comprido, cabelo médio. Por suas mãos tive os fios do cabelo tingidos de preto, chocolate, vermelho e de muitas cores ao mesmo tempo também.

Outro dia eu estava lá, sentada mais uma vez na cadeira à espera dos milagres do Lindomar, quando uma pessoa chegou à porta do salão e o chamou de "o médico dos cabelos."

- Do quê ele me chamou mesmo? - perguntou. Eu repeti pra ele ouvir.

Lindomar gostou daquilo.

Naquele dia, especialmente, eu me assustara com a capacidade do Lindomar de falar sem parar. De falar de um monte de coisa ao mesmo tempo, de emendar um assunto no outro, mas cuja essência era uma só: Lindomar não acredita que o Brasil tenha jeito e tem certeza que nascer brasileiro foi uma tremenda brincadeira de mau gosto que fizeram com ele.

Lindomar nasceu no interior de Goiás. É o mais velho de cinco irmãos. Em 1989 mudou-se definitivamente para Goiânia. Montou o salão na Rua 1, no Centro, onde permanece esses 20 anos. Não sei direito como as coisas funcionam na casa dele, mas ele parece cuidar (criar, educar etc) de dois sobrinhos adolescentes. Linha dura, já testemunhei seus telefonemas para casa pra saber o que eles estão fazendo. Limita o uso do computador e da internet, exige compromisso com a escola.

É esse Lindomar aí que naquele dia disparou a falar. Falou que há 18 anos não vai às urnas e que prefere continuar assim.Que acredita em político honesto assim como acredita em papai noel. Que não entende porque o Brasil investe tanto em seu processo eleitoral - "Vê essas urnas eletrônicas! Eles enchem a boca pra falar o quanto elas são modernas! Mas ninguém resolve a fila do SUS, a fila do INSS, a fila do banco...". Que no Brasil, dinheiro vale mais que palavra, que honra, que dignidade. Que não pode entender também como seres humanos podem ser amontoados em macas frias no corredor de um hospital lotado "como acontece no Hugo. Vi muita gente que eu gosto sofrer esperando atendimento ali".

Eu, otimista convicta - podia até ser garota propaganda daquele comercial de TV que diz "sou brasileiro e não desisto nunca!" - tentei colocar "panos quentes" na conversa. As coisas não são bem assim, nem tudo está perdido, nosso povo é guerreiro, tudo vai melhorar, em outros lugares também há incontáveis injustiças... "Deire, pobre só não morre quanto não tá no dia ou porque outro pobre ajuda. Isso aqui não tem jeito não." Lindomar, que nasceu em Goiatuba, nunca deixou as fronteiras do País e mal deixou os limites de Goiás. "Só não vou embora por causa da minha família."

4 comentários:

Perdigoteira disse...

Eu que não posso encontrar o Lindomar! Se não a gente se abraça e chora! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tô quenemzinha ele hehehehehehe

rogerioborges disse...

Lindomar, médico dos cabelos.
Como filho de cabeleireira, devo dizer que estes profissionais são mais que isso. Eles são médicos da alma. Psicólogos, ouvem as lamúrias de todo mundo.
Melhor que psicólogos, dão um tratamento eficiente sem precisar recorrer a substâncias com venda controlada: dão um tapa no visual da pessoa e ela sai com a autoestima lá em cima.
Grande crônica, Deiroca.

Luisa Dias disse...

Deirinha, já faz tempo que não frequento o Lindomar, mas está na minha memória a habilidade dele com as tintas e a navalha. Meu cabelo, nas mãos dele, não crescia nunca...mas variava muito. E eu nunca saía de lá sem ouvir um bom causo.

Rodrigo Alves disse...

Deire, um belíssimo texto em jornalismo literário. Adorei.